A capital da Áustria, Viena, não criou o café, mas o transformou em arte social. Dos sacos abandonados após o cerco otomano de 1683 aos 2.400 estabelecimentos que hoje aquecem a capital, a bebida virou sinônimo de conversa fiada, tratados filosóficos e um certo direito de “consumir tempo e espaço” sem pressa. Sirva‑se — de preferência numa xícara de porcelana branca — e percorra esses três séculos de cafeína, política e estética.
Prepare a xícara e descubra como o café ajudou a desenhar a alma cosmopolita da antiga capital imperial, enquanto ditava o ritmo de artistas, psicanalistas e revolucionários.
Como o café chegou à Áustria?
| Ano | Acontecimento | Detalhe |
|---|---|---|
| 1683 | Cerco de Viena | Sacos de grãos deixados pelo exército turco despertam curiosidade entre os locais. (Wikipedia) |
| 1685 | Primeira licença oficial | O armênio Johannes Diodato abre o primeiro Kaffeehaus regulamentado. (armencoffee.com) |
| 1686 | Lenda do Blue Bottle | Jerzy Kulczycki populariza o “Hof zur Blauen Flasche”; mito ainda celebrado com estátua na Favoritenstraße. (Wikipedia) |
| 1819 | Boom inicial | Já existiam 150 coffeehouses espalhadas por Viena. (Vienna Trips) |
| 2011 | Patrimônio da UNESCO | A “Cultura do Café Vienense” entra na lista de bens imateriais. (Unesco) |
A lenda dos cafés vienenses
Existe uma lenda, amplamente difundida e que até pouco tempo atrás acreditava-se ser como surgiram os cafés vienenses. Ela data de 1683 quando Viena foi cercada e sitiada pelo exército Turco Otomano. Conta-se que o jovem polonês Jerzy Franz Kolschitzky (1640-1694) que falava diversas línguas, entre elas o turco, se voluntariou para atravessar o acampamento otomano e contatar o duque de Lorena para enviar reforços.
Dizem que atravessou o acampamento vestido com as roupas do exército turco e cantando canções otomanas e conseguiu retornar à Viena com a notícia de que a ajuda viria em breve. Com a chegada dos aliados e a vitória sobre os otomanos, ele virou uma espécie de herói na época, recebendo diversas recompensas, entre elas, sacas de café abandonadas pelos turcos quando estes partiram em retirada.
Com o prêmio, Kolschitzky teria aberto a primeira casa de café de Viena, chamada “Hof Zur Blauen Flasche” que significa “Casa Sob a Garrafa Azul”, servindo o café turco que ele aprendera a fazer quando morava em Istambul. Como este café não agradava ao paladar dos vienenses ele teria adicionado leite e mel, tornando a bebida um sucesso, ainda hoje preferida pelos vienenses, servida com um creme doce.
Mas na verdade, o primeiro café vienense foi aberto em 1685, por Johannes Diodato (1640-1725), nascido em Istambul, e de origem armênia. De qualquer forma, a heroica lenda do soldado Kolschitzky rendeu festas dedicadas a ele e, inclusive, estátuas do moço nas ruas de Viena.
Café Central: palco da revolução das ideias
Inaugurado em 1876, o Café Central foi o segundo lar de grandes pensadores e artistas do século XX como Gustav Klimt, Egon Schiele, Robert Musil, Sigmund Freud e Peter Altenberg. Hoje, turistas disputam fatias de Sachertorte sob abóbadas neo-góticas, mas o local ainda conserva a aura de “escritório intelectual” vienense.
Impressionantemente, no início do século passado, cafés assim teriam acolhido também Hitler, Stalin e Trotsky que eram vizinhos em Vienna na época! E, porque não dizer, conversavam ali sobre seus pontos de vista, debatiam ideias e tomaram algumas resoluções que mudaram o curso da história mundial.
Café no cotidiano austríaco
O austríaco bebe em média 7,0 kg de café por ano — bem acima da média da UE. Só Viena abriga hoje cerca de 2.400 casas de café que variam dos salões belle époque aos roasters de bairro, além de diversos eventos voltados para o café. Se você está pensando em visitar a cidade, vale a pena agendar sua viagem para incluir o principal deles: o Viena Coffee Festival.
Atualmente, por € 4, uma Melange vem acompanhada de um copo d’água e licença para ler jornais por horas, reforçando o papel do Kaffeehaus como “clube democrático” da cidade. Vejamos do que se trata essa Melange.
Método tradicional: Wiener Melange
Na verdade, o Kaffeehaus é um clube democrático: basta o preço de uma xícara barata para ficar horas discutindo, escrevendo ou folheando jornais.
Stefan Zweig
Passo a passo (1 porção):
- Moer 18 g de café em textura média‑fina.
- Aquecer 150 ml de leite até formar leve espuma.
- Extrair 30 ml de espresso direto na xícara aquecida.
- Completar com o leite vaporizado, deixando 1 cm de espuma.
- Servir sobre pires prateado, com copo d’água — tradição que reforça o ritual da pausa.
Perfil de sabor: corpo sedoso, doçura láctea e amargor suave — mistura que inspirou o cappuccino italiano.
Você na Áustria
Quando chegar lá, você não pode apenas pedir “um cafezinho”. Na Áustria, os turistas costumam ficar perdidos porque existem mais de doze variações de café, mesmo nas menores casas.
Hoje, os cafés vienenses continuam tão vivos como estavam no passado. Sentar e apreciar nossa bebida predileta é também vivenciar uma atmosfera especial: de criação, de interação, de conversas e de construção do novo. Se você não conseguirá visitar esse importante e pequeno país tão cedo, pode explorar no vídeo abaixo (em inglês) como, em Viena, cada gole ecoa debates parlamentares, manifestos artísticos e o vaivém comercial que ainda liga o Danúbio às montanhas de Minas Gerais.
Lindo, não é? Deixe seu comentário e continue explorando a série Café pelo Mundo!
Respostas de 4
Parabéns pela matéria.
Só não tolero a torra super escura / negra que eles costumam tomar seus cafés, principalmente da JULIUS MEINL KAFFEE.
Abraço
Marcelo
@mmolterer
Mais uma bela história dos cafés pelo mundo… Parabéns…
Obrigada Silair!
Obrigada pelo comentário Marcelo 😉 Deve ser tão escura por eles misturarem com leite e outras coisas…